sexta-feira, 19 de março de 2010

Fortaleza de Almeida (Portas de Santo António)
O único sobrevivente da guarnição de uma bateria de artilharia portuguesa inspecciona os danos causados por uma carga de cavalaria francesa.
Nos passados dias 13 e 14 de Março realizou-se a edição de 2010 da Escola do Soldado, que reuniu em Almeida a maioria dos cidadãos portugueses que se dedicam à recriação histórica da Guerra Peninsular/Invasões Francesas.
Mesmo sem corridas e flexões, foram dois dias que exigiram dos participantes algum esforço com vista a aperfeiçoar procedimentos e regras de segurança, preparar e programar eventos futuros e reparar equipamento.
Para quem não sabe, todas as pessoas que se dedicam a esta actividade, quer no âmbito da Associação Napoleónica Portuguesa (ANP), quer no âmbito do Grupo de Recriação Histórica do Municipio de Almeida (GRHMA) fazem-no com espírito amador. A participação destes grupos em eventos a nível nacional e internacional depende da ponderação da relevância dos mesmos para a História nacional e dos objectivos e credibilidade das respectivas organizações - e nunca de quaisquer contrapartidas financeiras.
Este foram os princípios que há seis anos atrás estiveram na génese da criação da ANP e que agora ainda hoje se mantêm.

Batalhão de Caçadores nº 6, Companhia de Atiradores, em parada
O Batalhão de Caçadores nº 6 (BC 6) foi a primeira unidade militar portuguesa objecto de recriação histórica em Portugal e teve a sua estreia no ano de 2004, precisamente em Almeida.
Depois de muito trabalho e pesquisa, foi possível angariar o tecido próprio para confecção do uniforme (tecido castanho grosso, chamado serrobeco) e obter todos os demais equipamentos (muitos deles importados do estrangeiro) necessários à recriação fiel desta unidade militar.
O BC 6 teve a sua origem no Porto, no ano de 1808, em cuja região recrutou os respectivos efectivos. Conjuntamente com o Regimento de Infantaria nº 6 e nº 18, ambos igualmente recrutados na área do Porto, formou uma Brigada (unidade composta por dois ou mais regimentos) que combateu conjuntamente durante praticamente toda a Guerra Peninsular, sendo a única Brigada do Exército Português integralmente composta por elementos recrutados na mesma região.
Conforme é possível visualizar na imagem, o uniforme castanho é um elemento característico das unidades de caçadores. O sinal distintivo do BC 6 em relação às demais unidades de caçadores eram os canhões (das mangas) e as golas de cor amarela.
A companhia de atiradores constituía a unidade de elite, dentro de qualquer batalhão de caçadores - que por si só já eram considerados tropas excepcionalmente resistentes e qualificadas. Os elementos distintivos da companhia de atiradores (em relação às demais companhias de caçadores) eram os seguintes: penacho (fica por cima da barretina) e franjado (nos ombros) negros (as demais companhias utilizavam a cor verde); utilizavam a carabina Baker (em contraposição ao mosquete Brown Bess, utilizado pelas demais companhias) e utilizavam correame/talabartes específicos adequados à carabina.
A carabina Baker era das armas mais excepcionais das utilizadas na Guerra Peninsular. Com alma estriada (os mosquetes possuíam todos alma lisa), possuía um alcance e eficácia acima da média. Em contraposição, possuía uma cadência de tiro inferior, devido à dificuldade que as estrias causavam à introdução da munição.

Regimento de Infantaria nº 23 em defesa das Portas de Almeida!

Posteriormente ao BC 6, começaram a formar-se unidades de infantaria de linha, sendo actualmente as que contêm mais efectivos o Regimento de Infantaria nº 11 (RI 11) e o Regimento de Infantaria nº 23 (RI 23).
A infantaria de linha portuguesa da época das invasões francesas utilizava um uniforme (casaca) azul, na tonalidade que chamamos "azul prussiano" e que é um pouco mais clara que o azul marinho.
Conforme a região militar de proveniência, a infantaria poderia usar forro de cor vermelha (região militar centro), amarela (região militar norte) ou branca (região militar sul). O que demais permitia distinguir os 24 regimentos de infantaria existentes no Exército Português da época eram as cores das golas e dos canhões, que eram diferentes para cada regimento.
Por exemplo, o RI 11 utilizava forro de cor vermelha, golas de cor azul prussiano e canhões de cor azul claro. O RI 23 utilizava igualmente forro de cor vermelha (eram ambos da região militar centro), e golas e canhões de cor azul claro.
Em termos regulamentares, estava previsto que as calças dos soldados fossem de cor azul, como a casaca. Todavia, verificou-se que no Verão eram extremamente desconfortáveis, razão pela qual passou a aceitar-se a utilização de calças em tecido branco. Por essa razão e como se pode constatar na imagem, é perfeitamente possível a coexistência de calças de cor azul e branca na mesma unidade.
O RI 11 e RI 23 eram considerados o 1º e 2º regimentos de Almeida, por ser a zona geográfica do respectivo recrutamento.


Regimento de Artilharia nº 4 em fogo de apoio nocturno!
(peça de artilharia de 3 libras, modelo 1773, D. José I)

Existiram 4 Regimentos de Artilharia no Exército português da época a que temos vindo a fazer referência e escusado será que o Regimento de Artilharia nº 4 (RA 4) era o mais forte deles todos ! (os respectivos elementos eram recrutados a norte...).
Os regimentos de artilharia utilizavam um uniforme em tudo semelhante ao da infantaria.
Todavia, todos os regimentos de artilharia utilizavam forro de cor vermelha e apenas se distinguiam entre si mediante a variação das cores negra e azul nas golas e no canhão. Por exemplo, o RA 4 possuía gola de cor azul e canhão das mangas de cor negra.
Como toda a gente sabe, na infantaria ingressam homens e ingressam rapazes. Todavia, para ingressar na artilharia, os rapazes ainda vão ter de esperar...
PC